Enquanto houver insegurança alimentar, haverá escravidão

Especialistas alertam que a fome não é apenas um problema social — é uma ferramenta de dominação.

A insegurança alimentar, que afeta mais de 735 milhões de pessoas no mundo segundo a FAO — Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, agência da ONU que lidera esforços globais para erradicar a fome e promover a agricultura sustentável — vai muito além da escassez de comida: ela configura uma cadeia invisível que aprisiona indivíduos e populações inteiras em relações de dependência, exploração e submissão. Para pesquisadores, ativistas e organizações humanitárias, enquanto houver fome, haverá escravidão — ainda que ela se manifeste em formas modernas e disfarçadas.

Segundo a ONG Walk Free, mais de 50 milhões de pessoas vivem hoje em condições de trabalho forçado, sendo muitas delas atraídas por promessas de sustento em regiões devastadas pela pobreza extrema. “A fome é uma arma. É o que força mães a entregarem seus filhos a atravessadores, e homens a aceitarem condições de trabalho degradantes em troca de um prato de comida”, explica Renata Maria Capela Lopes, mestre em Direito, Justiça e Desenvolvimento pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), cuja pesquisa aborda os direitos de cidadania no contexto da liberdade de gênero.

O ciclo é perverso: a insegurança alimentar gera vulnerabilidade; a vulnerabilidade gera exploração. Em comunidades onde o acesso ao alimento é incerto, a liberdade deixa de ser uma escolha. A dependência do trabalho informal e do auxílio emergencial cria uma massa de trabalhadores sem voz, cuja sobrevivência depende de sistemas que não questionam — apenas obedecem.

Para romper essa lógica, especialistas como João Batista de Castro Júnior, doutor em Linguística e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), apontam a necessidade de políticas públicas integradas que garantam soberania alimentar, justiça econômica e educação crítica. “Erradicar a fome é mais do que alimentar corpos — é libertar mentes e reconfigurar estruturas de poder”, afirma ele.

Em tempos de crises múltiplas — climática, política e econômica —, o alerta é claro: a fome não é neutra. Ela tem donos, causas e consequências. E enquanto ela existir, a escravidão — com ou sem correntes — continuará sendo uma realidade silenciada.

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