Encontradas as primeiras artes rupestres do estado do Rio de Janeiro

As Agulhas Negras apresentam pinturas com mais de 3 mil anos que desafiam o conhecimento e abrem um novo capítulo na arqueologia fluminense. Descoberta histórica apresenta as primeiras pinturas rupestres do estado

Um achado surpreendente no coração do Parque Nacional do Itatiaia lança luz sobre as culturas pré-históricas e redefine a história fluminense.

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No final de 2023, as montanhas majestosas do Parque Nacional do Itatiaia, testemunhas silenciosas de milênios de história natural, guardavam um segredo arqueológico prestes a ser revelado: as primeiras pinturas rupestres já registradas no estado do Rio de Janeiro. O sítio, batizado de Agulhas Negras, aninhado a mais de 2.300 metros de altitude na área pertencente a Resende, foi trazido à luz por Andres Conquista, colaborador da concessionária Parquetur, durante uma exploração fortuita. A descoberta não apenas expande o mapa da arte rupestre brasileira, mas também abre uma janela inédita para a compreensão das sociedades que habitaram essa região há milênios.


Os traços delicados e carregados de significado encontrados nas rochas do Sítio Agulhas Negras incluem designs geométricos e grafismos zoomorfos, com uma figura que evoca a imagem de um lagarto visto de cima. A presença de bicromia em alguns desenhos, combinando tons de vermelho e amarelo-alaranjado, adiciona uma camada de complexidade à expressão artística. Arqueólogos como Carlos Gabriel sugerem uma possível ligação estilística com a Tradição São Francisco, uma manifestação cultural com mais de 3.000 anos de história, cujos registros se concentram principalmente no médio e baixo curso do Rio São Francisco, entre Minas Gerais e Bahia. Caso essa conexão se confirme, as pinturas de Itatiaia representariam o ponto mais meridional da dispersão dessa tradição no Brasil, indicando uma intensa circulação de ideias e símbolos entre os povos ameríndios em tempos remotos.

A localização do sítio em um ambiente de elevada altitude, historicamente desafiador para a ocupação humana, levanta questões intrigantes sobre os motivos que levaram essas comunidades a se estabelecerem ou visitarem essa área. A descoberta ecoa achados em outros sítios arqueológicos da região, como os de Andrelândia, Baependi e Carrancas, no sul de Minas Gerais, com destaque para a Serra de Santo Antônio, também associada à Tradição São Francisco e datada de mais de 3.000 anos. Essa proximidade sugere a possibilidade de que os autores das pinturas de Itatiaia tenham compartilhado raízes culturais com esses grupos, pertencendo a uma mesma "onda cultural".

Desde a confirmação da descoberta, o Parque Nacional do Itatiaia e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) agiram prontamente, notificando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN/RJ) para o registro e as devidas orientações de proteção. Em abril de 2024, equipes de pesquisadores da UERJ e do Museu Nacional/UFRJ realizaram as primeiras análises no local. A pesquisa, autorizada pelo SISBIO, envolve diversos especialistas dedicados à identificação, pesquisa e gestão de sítios arqueológicos no planalto do Parque Nacional do Itatiaia.

Apesar da magnitude da descoberta e de seu potencial para reescrever capítulos da história do Rio de Janeiro, informações adicionais sobre o Sítio Agulhas Negras ainda são limitadas online, o que pode ser atribuído à sua recente identificação, no final de 2023. Essa escassez de dados públicos ressalta a importância da cautela e da priorização dos esforços de preservação neste momento inicial. O local já foi isolado e está sob monitoramento por câmeras de segurança, com acesso irregular sujeito a multa, demonstrando o compromisso das autoridades com a proteção desse patrimônio.

Embora a visitação ao sítio não seja permitida nesta fase, o gestor do Parque Nacional do Itatiaia, Felipe Mendonça, enfatiza que essa decisão visa garantir o avanço dos estudos para que, no futuro, a melhor estratégia de visitação possa ser avaliada em conjunto com os pesquisadores. A colaboração entre ICMBio, pesquisadores, IPHAN e a sociedade é considerada fundamental para a salvaguarda desse importante patrimônio histórico e cultural.

A descoberta das pinturas rupestres no Parque Nacional do Itatiaia representa um marco inédito para a arqueologia do estado do Rio de Janeiro. Ao trazer à luz vestígios de um passado remoto, gravados nas rochas a mais de dois mil metros de altitude, o Sítio Agulhas Negras convida a uma profunda reflexão sobre a presença ancestral de povos indígenas e a rica tapeçaria da história brasileira. À medida que as pesquisas avançam, a promessa é de que esses traços milenares revelem narrativas fascinantes e expandam nossa compreensão das culturas pré-históricas que moldaram o território fluminense. Este é apenas o primeiro capítulo de uma história que promete ser tão grandiosa quanto as montanhas que a guardaram por milênios.

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